A investigação das fontes e dos problemas da hermenêutica, filosófica ou jurídica, levam ao enfrentamento de dois jogos de percepção: primeiro, defrontamo-nos com o modo em que vemos o mundo. Isso significa o reconhecimento de alguns padrões de processamento da realidade, verificando direcionamentos, sentidos e crenças. Nesse rumo, hermenêutica implica numa autoconsciência, senão, na tentativa dela. Outro lado é o de como se processa e expressa essa autoconsciência, falando das coisas e valorando. Evidentemente, essa reflexão contém uma sorte de disciplinas fundidas em uma definição que, aos especialistas, não seria muito mais do que uma mixórdia. E talvez o seja; mas se o pensamento deve ordenar o mundo, talvez ele também deva aceitar que nem sempre as cores são de todo tão puras quanto desejamos.
Debates sobre hermenêutica — para uma vida que exige compreensão (e que nos compreendamos)
Sobre hermenêutica
O objeto deste blog, cujo contexto de pesquisa se completa por meio dos demais projetos arrolados no item ao lado denominado "intertexto", é investigar algumas dimensões e possibilidades da hermenêutica para auxiliar na construção de busca por soluções aos problemas que afligem a existência humana e que podem encontrar no pensamento filosófico um campo fértil de elaboração de respostas.
De um modo geral, pretende-se trabalhar na linha de preocupação proposta por Hugh Lacey (2009) quando afirma que a pergunta ética central do cientista deve ser: "como essa pesquisa pode ajudar na formação humana?".
A hermenêutica parece ser um campo potencial neste sentido.
O verbete "Hermeneutics" da "Stanford Encyclopedia of Philosophy" traz uma excelente abordagem do histórico da hermenêutica.
Segundo a Enciclopédia, o termo "hermenêutica" refere-se, em princípio, tanto à arte quanto à teoria da compreensão e interpretação de expressões linguísticas e não-linguísticas.
Enquanto teoria da interpretação, a tradição hermenêutica remontaria ao pensamento grego, sendo que no contexto da Idade Média e do Renascimento avultaria enquanto aporte fundamental dos estudos bíblicos, sendo que posteriormente abarcaria também o estudo das obras antigas e clássicas.
A partir do romantismo e idealismo alemães, a hermenêutica sofreu mudanças em seu objeto precípuo, tornando-se, pois, filosófica. Ou seja, não mais considerada apenas como um suporte metodológico ou didático estabelecido para auxiliar demais disciplinas ou abordagens específicas do conhecimento, a hermenêutica concerniu também à investigação das condições de possibilidade para a comunicação simbólica. Isto representou uma passagem da questão central de "como ler?" para "como nos comunicamos?".
Foi esta mudança de foco e de problema, iniciada por, dentre outros, Friedrich Schleiermacher e Wilhelm Dilthey, que possibilitou o turno ontológico ocorrido nos anos 1920 por meio do pensamento de Martin Heidegger ("O ser e o tempo") e levada adiante por seu aluno Hans-Georg Gadamer.
Atualmente, a hermenêutica não se preocupa apenas com a comunicação simbólica. Ela se tornou ainda mais fundamental em seu questionamento: passou a abordar a vida humana e sua existência. Assim, passou a refletir acerca das profundas condições para a interação simbólica e cultural, de modo geral, do que a hermenêutica forneceu horizontes críticos a muitos e mais intrigantes debates da filosofia contemporânea, tanto no contexto anglo-americano (Rorty, McDowell, Davidson) quanto no europeu (Habermas, Apel, Ricoeur, Derrida).
REFERÊNCIAS
LACEY, Hugh. O lugar da ciência no mundo dos valores e da experiência humana. Sci. stud. [online]. 2009, vol.7, n.4, pp. 681-701.
STANFORD Encyclopedia of Philosophy. Verbete "Hermeneutics":
Bartholomäus Spranger. Hermes e Athena. c. 1585. Afresco.
quinta-feira, 15 de março de 2012
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